Titulo: Intimidade e Exuberância de Belo Horizonte na pintura de Elias Layon
Layon realizou uma série de pinturas cujo tema denominou “Belo Horizonte, síntese, tom e essência de Minas”. Os olhos do pintor passearam por regiões de Belo Horizonte que vão desde praças e coretos conhecidos, prédios importantes, aeroportos, avenidas principais, campos de futebol, rio central, feira de artesanato até as vistas mais aéreas da cidade. O conjunto do que seria uma metrópole com suas referências marcantes.
Embora os locais escolhidos sejam de fácil identificação, Layon jamais se presta a pintar cartões postais. Na verdade, ele reinventa Belo Horizonte de uma forma genuinamente nova, inesperada, causando profunda impressão no espectador de sua obra.
O que surge nas suas telas é uma cidade que respira única e exclusivamente a partir da criação artística. Para o pintor existe uma realidade desejada que é diferente da copiada. E esse é o presente que o artista dá à famosa capital de Minas Gerais: fazer brotar dela, da impressão que causa no artista, uma nova cidade, criada à luz da invenção artística.
Portanto, não se procure na pintura de Layon a cálida luz de Belo Horizonte, as linhas delicadas de seu traçado, as metamorfoses contidas de sua transformação urbana. Uma nova e surpreendente paisagem-cidade é o que se anuncia.
Segundo Bachelard, “para o pintor, a cor possui profundidade, espessura, desenvolvendo-se, ao mesmo tempo, numa dimensão de intimidade e numa dimensão de exuberância”. Estas palavras casam-se diretamente com a série que Layon elaborou.
A relação entre intimidade e exuberância é o leitmotiv desta série. Criadas a maioria das vezes a partir de tonalidades quentes, de pinceladas robustas e de espatulados densos, a cidade exibe uma exuberância que desfaz o mito da timidez mineira. Como se guardada sob a aparente fragilidade de sua constituição, a cidade revelasse a potência vívida da sua existência total.
Doutor em História da Arte pela UNICAMP e professor de História da Arte e Crítica de Arte na UEL (Universidade Estadual de Londrina).
A textura do material pictórico e a força impositiva das cores formam cada monumento, cada céu, cada montanha, cada conjunto arquitetônico como se lhe revelassem essa vontade primitiva de existir para além de qualquer timidez.
Como se ali, gravado inconscientemente, estivessem reveladas todas as representações da “força de Minas”, sua história, sua política, sua arte, valores máximos de uma tradição que começa com a revolucionária idéia de libertas quae sera tamem, não esquecida por Layon, símbolo particular de nossa história, emblema da bandeira da liberdade sonhada na nossa Inconfidência Mineira, princípio gerador de uma vanguarda política que explodiria mais tarde na Constituição Republicana e que nunca deixou os sonhos dos mineiros.
Layon concentra muita força nestas pinturas, forças para além do que a cidade, à primeira vista, revela. Só se assustaria com telas tão peremptórias quem desconhecesse a riqueza guardada no ventre de Minas Gerais.
Ressoa em cada tela a potência criadora de uma história que parte do Barroco Mineiro, caminha pela música mineira (Beto Guedes, Milton, Toninho Horta, Lô Borges, Skank), cria a poesia dos inconfidentes Claudio Manuel da Costa e Thomas Gonzaga e dos modernos Drummond e Affonso Ávilla, ressoa na escrita de Guimarães Rosa e Pedro Nava, sonha com os amores da gente mineira desde Marília e Barbara Heliodora, assume a vitalidade do Grupo Corpo e persiste com o desejo criativo e inabalável de alcançar a liberdade seja na história, seja na política, seja na arte.
A predominância do vermelho em muitas dessas telas, como o sangue denso da vida, talvez revele o preço que muitos pagaram (Tiradentes e Claudio, entre outros) para a constituição desta metrópole-capital como símbolo da realização histórica do povo mineiro.
Há pinturas mais leves que nos embalam na felicidade de um azul ora claro, ora mais escuro, mas predomina quase sempre um esverdeado, um acinzentado ou um alaranjado submetido ao apelo dominante do vermelho. Tudo enseja o silêncio pesado das formas grávidas das coisas perenes, imemoriais. O artista não nos livra da história, ao contrário, inscreve-a na forma da sua arte.
Isso porque, como disse Bachelard, o pintor é um ser solicitado pelos elementos. A cor, seu principal constituinte, vive de uma constante troca de forças entre a matéria e a luz, entre o movimento e a fixação destes elementos e junte-se a tudo isso a memória do tempo guardada na vida das formas. Layon é artista em tom maior, por isso percebe tudo o que se inscreve na paisagem. E a revela pra nós.
Para terminar, parafraseio Claudio Manuel da Costa e digo que Belo Horizonte é hoje, a partir dessas pinturas, “planta mais tenra, flor de mais agrado; enfim, porque de vós as cores tomou”.
Fonte: www.eliaslayon.com.br | Autor: Jardel Dias Cavalcanti