A Casa dos Contos é, sem sombra de dúvida, um dos mais belos monumentos histórico-arquitetônicos do século XVIII do nosso período colonial. A trama da história mineira entrelaça-se à sua estrutura como se fosse a sua própria alma.
Acrescenta-se agora à sua história secular a imperiosa pintura de Elias Layon, que acaba de visitá-la com seus pincéis numa seqüência de mais de 100 obras. O conjunto das pinturas é impressionante pela sua força pictórica, pela poesia que abarca, pelos sentimentos que nos despertam. Ninguém fica impune à magnífica presença arquitetônica da Casa dos Contos e Layon, finalmente, decidiu revelar as impressões que esta casa sempre lhe causou. O resultado é espantoso.
A Casa dos Contos revela-se na sua intrincada e obscura história através dos competentes pincéis de Layon. Vista de frente, de lado, por dentro de seus corredores, paredes, escadas e janelas, de perspectivas as mais diversas e com cores que variam de tonalidades quentes até as mais apaticamente frias, com pinceladas e espatulados que mesclam sentimentos assombrosos, delicados, fantasmagóricos e, por vezes, angustiosos, a casa faz sua aparição de forma inesperada e impressionante.
Não há como não perceber o valor simbólico das cores e pinceladas de Layon. Sentimentos de um passado histórico feito de incertezas, orgulho, ganância, soberba e violência, como também sua grandiosidade artística, podem emergir da concentração de grandes massas pictóricas, numa narrativa inconsciente de fatos guardados no baú da história, impossíveis de serem recompostos à luz do empirismo, mas que o artista tensiona e revela intuitivamente com sua arte.
O peso dramático das histórias que envolvem essa casa não poderiam ter encontrado melhor forma de representação. Diferente de um cartão-postal, que revela apenas a casca de um passado, o conjunto das pinturas de Layon pretende fazer saltar à nossa imaginação, com uma força da qual dificilmente nossos sentidos escapam, todos os dramas que a casa comportou na sua longa história.
Foi ali, afinal, que se passou um dos importantes acontecimentos de nossa histórica luta pela descolonização: o assassinato de Cláudio Manoel da Costa, o mais significativo poeta árcade e membro da Inconfidência Mineira. Só esse fato bastaria, de per si, para carregar essa casa com um peso histórico-trágico. E não há como não pensar neste fato ao vermos Layon banhando corredores, janelas, tetos e a própria estrutura da casa com um simbólico vermelho sanguíneo que chega a escorrer até pelas ruas da cidade de Ouro Preto. Não há historiador que consiga nos transmitir emoção tão forte quanto essas pinturas que inscrevem imperativamente o passado em nossa alma presente.
Com as pinturas de Layon uma nova história se inscreve à antiga história da Casa dos Contos. Passado e presente se encontram sob o efeito de emoções as mais variadas, nos carregando de percepções que só um artista do calibre de Layon pode nos proporcionar.
Historiador da Arte
Dr. em História da Arte pela UNICAMP
Prof. de História da Arte e Filosofia da Arte na UNIMESP – S.P