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Titulo: O Escultor Elias Layon: as mãos e o espírito

Há um conjunto de elementos que determina a excelência de um artista. A prática incansável de seu ofício, a ampla cultura visual apreendida no contato com a tradição artística e o domínio dos meios como o desenho, a cor e a composição. Nesse sentido, Layon se realiza como um artista pleno. Toda uma vida dedicada à pintura deu-lhe uma refinada sensibilidade e precisão na realização de sua obra.
Como se não lhe bastasse a pintura, Layon decidiu entregar-se ao ofício da escultura. Imaginemos a surpresa dos apreciadores de sua obra ao verem-se frente ao desvelar repentino de um escultor que praticamente nasce pronto. Essa condição inusitada deve-se, porém, ao afinco com que Layon sempre conduziu sua vida como pintor.
Toda uma experiência, toda uma cultura, toda uma sensibilidade acumulada por anos de infatigável trabalho derrama-se agora sobre suas mãos dedicadas a transformar a matéria bruta da madeira em encantadoras esculturas vivas. Para que sua mão dê forma aos conteúdos de suas novas ansiedades artísticas, o artista escolhe a madeira para talhar nela as figuras que sua imaginação deseja trazer ao mundo.
Na escultura são principalmente os movimentos que expressam os sentimentos dos personagens. Será a forma com que o personagem se move (seja com os olhos, com uma pequena expressão facial ou um gesto das mãos) que comunicará o sentido de sua alma, sua tragicidade, seu ardor, sua presença mística. Comunicar ao expectador esses sentimentos, provocar nele a paixão, a tristeza ou a elevação espiritual, é a tarefa do artista. E o escultor que conhece os melhores mecanismos de funcionamento do corpo humano e seus movimentos será aquele que melhor representará os movimentos da alma desses mesmos personagens.
É o caso de Layon. Os seres que o artista esculpe são dotados de espírito, respiram, se movem graciosamente, têm uma fisionomia expressiva (quer seja dor, êxtase ou contida delicadeza espiritual). Foram tocados pela sensibilidade das mãos do artista que os esculpiu em gestos gráceis, em contensões extáticas, em panejamentos móveis. A dureza da matéria teve que ceder aos impulsos exigidos pela vontade de quem as imaginou vivendo.
Um olho voltado aos céus em busca do divino, uma reflexão contida num gesto íntimo que recolhe uma cabeça como que voltando-se para dentro de si mesma, nos faz perceber a destreza do artista em animar estas figuras. Podemos dizer que suas esculturas estão além de uma simples representação teatral artificial. Ao contrário, elas sentem, pensam. Ou melhor, o artista as força a sentir e pensar. E são os seus gestos os portadores da vida animada de seu espírito e de seus corpos.
O artista estuda detalhadamente os gestos e a expressão de seus personagens. Quando Layon, por exemplo, coloca-os em repouso, não é que lhes faltem impulso vital, é que se preparam para um gesto magnífico que sonham executar. Gesto este que podemos adivinhar, pois pressentimos através de suas articulações musculares que o instinto e a vontade de agir meditam nelas, revelando as marcas de um mistério que habita suas vidas. Uma espiritualidade diáfana se desenha nos leves contornos faciais, em mãos que gesticulam serenamente o existir de uma alma superior e em olhos que alcançam o infinito num êxtase místico.
Pense-se no seu São Sebastião que mesmo no martírio conserva nos seus gestos uma graça e uma elegância transmitidas pelo seu belo e suave corpo semi-nu. Sua atitude é de sofrimento diante de uma morte iminente, mas seu semblante conserva-se doce, pois ele já pressente as doçuras da harmonia celeste.
Embora sejam seres mudos, as esculturas nos falam com inerente força persuasiva através de seus músculos, sua pele, seus ligamentos, sua estrutura óssea e suas vestes que perfeitamente lhe caem sobre esta forma corporal bem composta. Além de dotá-las de uma corporeidade viva, Layon sabe fazer com que suas figuras expressem algo além de sua própria carga física, desse peso da matéria, desse agitar-se da simples existência orgânica. A elegante vivacidade dos gestos puros, sua bela silhueta, a hábil movimentação de seus olhos, faz com que algo de superior se instale nelas: a sensação da presença de algum mistério. E se seus panejamentos dançam sob um vento invisível, fazendo o peso da madeira ceder à leveza do pano móvel, podemos adivinhar a presença divina que visita estas figuras.
Através do ritmo gracioso e ascendente das figuras, que faz confluir gestos e vestimentas, o artista consegue obter no panejamento flamejante uma linha de força que se prolonga e se propaga para além dos limites do espaço, em direção ao céu.
As vestimentas de seus santos constituem uma massa luminosa, agitada, palpitante, em outras palavras, viva, tão viva que nos faz pensar nessas chamas ardentes como uma luminosidade própria que traduziria a idéia da chama do amor divino.
Num século de extrema racionalidade, onde perdemos o sentido de nossa dimensão cósmica, Layon retoma a plástica barroca nos fazendo relembrar a presença fugidia de uma espiritualidade que em outros tempos era a parte mais importante de nossas vidas. Nas suas figuras o olhar, a expressão, a cor dos olhos, da face, dos cabelos ou a posição dos membros são elementos que suscitam no espectador a nobreza desses sentimentos espirituais.
As obras são estruturadas e organizadas numa retórica cristã, mas permitem a existência dos sentimentos imaginativos que a forma contém para além de suas posições religiosas institucionais. Uma sensualidade que permeia corpos (veja-se São Sebastião), olhares que transcendem a si mesmos (veja-se Santa Ana), gestos e vestimentas que dançam sob a força do invisível, nos seduzem para espaços da sensibilidade e da intuição que ecoam uma realidade transcendente. A arte como forma ou manifestação sensível do invisível, como dizia o historiador da arte Carlo Giulio Argan.
Nesse sentido, podemos ler alegoricamente as esculturas de Layon como uma retomada da reflexão sobre a virtude espiritual, sobre a fugacidade da felicidade terrestre e a perenidade da glória divina (e, porque não, também a glória da arte na sua perenidade). Suas obras organizam os elementos para que essa alusão corresponda à vida das figuras esculpidas. A movimentação que faz algumas figuras dançarem ao sopro de uma brisa celestial que as possui (veja-se olhos e gestos direcionados da terra aos céus) traduzem essa revelação sensível das formas abstratas que transcendem o espaço e o tempo da história humana.
 Layon faz a matéria bruta ir além de si mesma, faz com que ela se dobre à sua criatividade, para revelar para nossa vida um sentido sensual e espiritual que somente a obra de arte pode dar. Essa delicadeza resultante do gesto artístico é que dará à nossa alma o sentido do eterno, pois como dizia o escritor francês Stendhal, “a beleza é uma alegria para sempre”.


Jardel Dias Cavalcanti
Doutor em História da Arte pela UNICAMP
Prof. de História da Arte e Filosofia da Arte na UNIMESP (Universidade Metropolitana de São Paulo)
 

Fonte: www.eliaslayon.com.br | Autor: Jardel Dias Cavalcanti
Data da publicação no site: 2010-01-31
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