Elias Layon, artista nascido no Líbano e marianense de coração, plantou na primeira cidade de Minas suas raízes. E retirando das brumas e do Barroco Mineiro a inspiração para realizar obras maravilhosas, vem cravando Mariana e o mundo com as marcas da criatividade que brota de suas mãos. Determinado e organizado, exerce, além de sua veia artística que resulta em belos trabalhos de pintura e escultura, a sua tendência para a prática da arquitetura, desenhado e executando projetos maravilhosos, como o de seu atelier em Mariana, que vale à pena ser visitado, não só pela qualidade de suas obras expostas como pela beleza arquitetônica do prédio, assim como sua residência, também localizada em Mariana, edificação de extremo bom gosto.
Traçando um caminho indubitavelmente feliz, esbanja tranqüilidade, competência e companheirismo, porque não mede esforços para incentivar novos artistas e reconhecer aqueles que o ajudaram.
Perguntei ao Elias, como e quando a Arte surgiu em sua vida:
Elias Layon:– O dom surgiu bem cedo, aos sete anos; mas, somente aos treze, eu entrei para a escola de Erna Antunes, artista iugoslava, formada pela Academia de Belas Artes de Viena, casada com um marianense. Essa pequena escola funcionava em uma casa da Praça Gomes Freire e inicialmente tinha 33 alunos.
Cacá Drummond:– Onde você nasceu, por qual razão veio parar em Mariana e com qual idade?
Elias Layon:– Meu pai dizia que eu havia nascido no Brasil, mas que ele tinha me registrado no Líbano, sua terra natal, pra onde ele pretendia voltar assim que ficasse rico. Na realidade, nasci mesmo no Líbano, vindo para o Brasil, com apenas um ano de idade. Em Mariana, cheguei com minha família aos 6 anos. Meu pai pretendia montar um empório de beneficiamento de trigo, em Ouro Preto.
Cacá Drummond:– Quando você ingressou na escola de Erna Antunes e como isso ocorreu? Foi por intermédio de família, amigos ou foi uma iniciativa sua? Você começou com a pintura ou com a escultura?
Elias Layon:– Eu já desenhava e pintava em casa, na infância. Meu ingresso na escola de Erna Antunes foi por influência de minha saudosa mãe, Laurice Layon, que tinha diversos artistas em sua família e a contragosto do meu pai que me queria comerciante. Na escola a orientação sempre foi no sentido do desenho e da pintura.
Cacá Drummond:– Quanto tempo você ficou sob a orientação de Erna Antunes? E depois da escola de Erna, você fez outros cursos? Quando você decidiu definitivamente pelo caminho da Arte, como profissão?
Elias Layon:– Fiquei sob a orientação de Erna por mais ou menos cinco anos, somente no período de férias, pois ela morava no Rio de Janeiro, onde seu marido era industrial. Depois de Erna, pintei muito tempo ao natural com Estevão, ex-aluno de Guignard, com Jair Inácio, Oscar Walzak e outros. Participei de um Festival de Inverno e também fiz FAOP. Só vim a perceber mesmo que viveria profissionalmente da arte quando meu pai se mudou com a família para São Paulo, me deixando em Mariana. Com a mudança do meu pai, me vi automaticamente vendendo minhas pinturas e vivendo independente da família. Eu nem sentia que seria assim, pois eu ainda era estudante e jamais havia sonhado em me tornar um artista e viver financeiramente da Arte.
Cacá Drummond:– É possível contar porque você fez a opção por ficar em Mariana?
Elias Layon:– A opção por ficar em Mariana me veio na época como uma esperança de continuar pintando as paisagens coloniais de nossa região ao natural e, ao mesmo tempo, estudar pois desejava fazer o curso de engenharia, em Ouro Preto.
Cacá Drummond:– Sua família aceitou facilmente a sua opção pela arte?
Elias Layon:– Pelo lado materno tive todo o incentivo. Minha mãe tinha tios, irmãos e sobrinhos, no Líbano, envolvidos nos mais diversos segmentos da Arte. Meu pai queria que eu o seguisse na área do comércio. Posteriormente, ele acabou concordando com a minha opção.
Cacá Drummond:– Como se deu a abertura de seu atelier?
Elias Layon:– A abertura de meu primeiro atelier se deu aos 15 anos, na casa de D. Efigênia dos Anjos, de saudosa lembrança, apelidada de Efigênia Quitute, amiga de minha família, pessoa que mais tarde se tornou a minha maior incentivadora.
Cacá Drummond:– Quando você vendeu o seu primeiro trabalho e para quem?
Elias Layon:– A primeira pintura vendida foi nessa mesma época para o renomado desenhista, o saudoso Augusto Rodrigues, do Rio de Janeiro, fundador de escolinhas de arte no Brasil, por ocasião de sua visita à escola de Erna Antunes, onde tinha exposição permanente dos trabalhos dos alunos.
Cacá Drummond:– Quando você fez a primeira exposição?
Elias Layon:– A primeira exposição individual foi no Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, aos 19 anos de idade, quando fui descoberto aqui em Mariana por Palhano Júnior, que cuidava de lançar novos talentos, em Minas Gerais. Palhano era marchand, tenor e, nessa época, veio a Mariana para um concerto, quando entrou em entusiasmado contato com o meu trabalho, que consistia em pintar o interior das igrejas de nossa região, diretamente ao natural.
Cacá Drummond:– Em algum momento você pensou em mudar o seu caminho profissional ou a certeza pela escolha da arte foi constante? Quando você teve certeza de ter feito a escolha certa?
Elias Layon:– Essa primeira exposição promovida pelo Palhano Júnior e com catálogo apresentado por MariS’tella Tristão, intitulada “Interiores das Igrejas de Minas”, que alcançou grande sucesso de crítica e de público, influiu definitivamente na minha carreira como incentivo e, também, como a dizer que estava certo a seguir em frente na arte.
Permitam-me aqui, caros leitores e meu amigo Layon, registrar a interrupção que aconteceu nesse momento da entrevista, quando o Elias mencionou o nome da grande Crítica e Curadora de Arte, MariS”tella Tristão, pessoa de enorme importância também na minha carreira como artista plástica e na carreira de inúmeros artistas de Minas Gerais. Seria uma injustiça, se não prestasse aqui a minha homenagem àquela jornalista que incentivou de forma definitiva e significativa a carreira de todos nós. A ela nosso carinho, gratidão e saudade!
(Retomando à entrevista):
Cacá Drummond:– Você fez outras exposições logo em seguida?
Elias Layon:– Em seqüência, fui convidado pela Prefeitura de Petrópolis a expor no Palácio do Cristal e também em Campinas, no sesquicentenário da cidade, onde consegui vender toda a minha exposição e com esse entusiasmo, abri outro atelier em Ouro Preto, paralelo ao que eu já tinha em Mariana, para difundir mais a minha obra.
Cacá Drummond:– Por quanto tempo você pintou os interiores das igrejas?
Elias Layon:– Pintei durante mais de dois anos, exatamente para formar os meus quadros que iriam compor minha primeira exposição.
Cacá Drummond:– Como era essa pintura “diretamente ao natural”?
Elias Layon:– Era feita, conforme nos orientava Erna Antunes, à maneira dos impressionistas, ou seja, copiando o tema em seu local de origem.
Cacá Drummond:– E daí para frente, como o seu trabalho evoluiu?
Elias Layon:– O trabalho da arte evolui paulatinamente, às custas de muito esforço. As pessoas acham que o artista nasce pronto. Apenas herdamos a vocação. Porém, como em qualquer profissão, é necessário muito estudo e eterna dedicação. A Arte nos cobra o preço de uma vida, se é que uma vida tem preço!
Cacá Drummond:– Você fez outros cursos?
Elias Layon:– Fiz curso de Anatomia Humana, pela Escola de Farmácia de Ouro Preto. Estudei pintura ao natural com Mário de Oliveira e Oscar Walzak. Estudei modelagem, xilogravura e anatomia de cavalos, sozinho.
Cacá Drummond:– Quando a escultura surgiu em sua vida?
Elias Layon:– A escultura surgiu há 8 anos, a partir de um chamado interior para a execução de imagens sacras, que eu desejava para a composição de uma capela em minha casa, em devoção ao Santo Antônio e à Nossa Senhora da Conceição. Não encontrando imagens que se adequassem ao espaço da capela, decidi fazê-las. Depois disso, não mais parei de esculpir.
Cacá Drummond:– Como o estudo de Anatomia influenciou o seu trabalho?
Elias Layon:– Estudei Anatomia com o objetivo de pintar retratos. Eu queria ter domínio do desenho da figura humana. Erna Antunes recomendava este estudo que, com certeza, ajudou também no desenvolvimento das esculturas.
Cacá Drummond:– Em alguns de seus trabalhos de pintura é fácil identificar personagens do cotidiano marianense – amigos, pessoas de sua família e até você mesmo. Fale um pouco sobre esse trabalho de fazer a fusão entre a Arte Barroca e o cotidiano.
Elias Layon:– A utilização, pelo artista, de familiares e conhecidos como modelos para o seu trabalho é tão antiga como a própria Arte. Na realidade, os estilos nunca morrem; simplesmente adormecem, até que alguém ou algum grupo decide retomá-los. Foi o que aconteceu comigo e com outros artistas de Minas, em relação ao Barroco. Estamos fazendo uma releitura do Barroco Mineiro, dentro de um espírito de contemporaneidade. Foi o que aconteceu com Da Vinci, Michelangelo, Rafael e outros, no Renascimento que se inspirou na tradição estética dos modelos antigos, greco-romanos.
Cacá Drummond:– Sua pintura é caracterizada pela presença constante das brumas; quando elas surgiram em seu trabalho?
Elias Layon:– Antes de pintar os interiores das igrejas, eu já pintava esporadicamente as brumas de Mariana. Depois da primeira exposição, retomei a pintura das brumas e do ar atmosférico de nossa região, definitivamente, pois era o tema que me inspirava. Antes de mim, não conheci nenhum artista que tivesse interessado por essa temática. O mais tradicional era pintar as paisagens coloniais em dias ensolarados.
Cacá Drummond:– E por qual razão você se inspirou nas brumas?
Elias Layon:– As brumas me transportam aos dias de minha chegada a Mariana, na infância, pela ferrovia, de madrugada, com a cidade toda imersa em névoas. Dia marcante que pode ter me influenciado a seguir por essa temática, sem contar que sou de origem asiática, onde neva muito.
Cacá Drummond:– Qual é o sentimento que lhe leva a retratá-las de forma tão singular?
Elias Layon:– Talvez um sentimento de romantismo ou uma volta inconsciente aos dias de menino. São o que essas paisagens coloniais, montanhosas, envoltas em névoas, encerram e se traduzem em meu trabalho.
Cacá Drummond:- Depois de você, alguém da região explorou o mesmo tema?
Elias Layon:– Diversos artistas se influenciaram pelo meu trabalho. Acho isso extremamente positivo e gratificante, pois é a forma de dar continuidade aos estudos que iniciei.
Cacá Drummond:– E as esculturas? Existem santos dos quais você faz esculturas com mais freqüência?
Elias Layon:– Faço esculturas, sem exceção, de todos os santos que foram de devoção e inspiração do Barroco brasileiro. O nosso objetivo, na Escultura, é resgatar esse estilo, há tantos anos adormecido e intocado, após o Mestre Aleijadinho, em 1814. Mas, tenho particular admiração por São Francisco de Assis.
Cacá Drummond:– Você considera seu trabalho como escultor uma releitura do trabalho do Aleijadinho?
Elias Layon:– Releitura do Aleijadinho, não; mas algo dentro do espírito Barroco Mineiro, onde Aleijadinho foi o seu maior representante.
Cacá Drummond:– Você esculpiu um Aleijadinho; uma escultura maravilhosa! O que significou esse trabalho para você?
Elias Layon:– Esse retrato que fiz do Aleijadinho, em cedro, além de conter toda a minha admiração pelo seu trabalho, quis fazer, ao mesmo tempo, um tributo em escultura a esse grandioso mestre, que nunca recebeu uma homenagem desse tipo de um escultor brasileiro.
Cacá Drummond:– E a participação no trabalho de restauração das imagens da Igreja Nossa Senhora do Carmo de Mariana, como foi?
Elias Layon:– A contribuição que dei à Carmo, fazendo o Cristo em cedro, em tamanho natural, foi das mais significativas na minha carreira de escultor, pois nessa obra há um resgate da tradição do artista unida à Igreja, na difusão da arte, da fé e da religiosidade. Isso não tem preço e é muito gratificante, quando o trabalho transpõe o limite do decorativo para algo muito mais elevado.
Cacá Drummond:– E o trabalho de policromia nas esculturas, como é feito?
Elias Layon:– O trabalho de douramento e policromia segue os mesmos princípios técnicos do passado, com poucas alterações; da mesma maneira que, ainda hoje, é ensinado na tradicional Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, Lisboa.
Cacá Drummond:– Você me disse certa vez que não gosta de expor seu trabalho fora de seu atelier. Por que?
Elias Layon:– Pelo meu temperamento e também por praticidade, pois já tenho ateliers em Mariana e Ouro Preto, muito bem localizados, onde consigo vender bem minhas obras, evitando, assim, todo o trabalho exaustivo de se fazer uma exposição fora daqui, além do que, já possuo algumas galerias de arte que agenciam minhas obras em outros estados.
Cacá Drummond:– Como foi expor, recentemente, na Casa dos Contos, em Ouro Preto?
Elias Layon:– Sem sombra de dúvidas, foi o retorno mais gratificante em toda a minha carreira, pois pinto essa Casa desde menino. A minha relação com a Casa dos Contos é de extrema gratidão, admiração e amor. Devo agradecer ao gerente da casa, Dr. Eugênio Ferraz e ao querido amigo Sussuca, magnífico curador dessa exposição, que alcançou enorme sucesso, que muito me emocionou.
Cacá Drummond:– Você já vendeu muitas obras fora do Brasil?
Elias Layon:– Mariana e Ouro Preto são visitadas por turistas do mundo inteiro. Isso permite a difusão do artista fora daqui, com muita facilidade. Tenho mais de 2000 trabalhos fora do Brasil.
Cacá Drummond:– Como você classifica o estilo de seu trabalho?
Elias Layon:– Todo o meu trabalho, anterior a sete anos, não tinha nenhuma conotação do Barroco. De lá para cá, após me iniciar na escultura é que surgiu essa influência do Barroco Mineiro. Classifico minha pintura, atualmente, como um Neo-Impressionismo com passagens pela releitura do Barroco Mineiro.
Cacá Drummond:– Em termos de futuro, quais são os planos do Artista Layon?
Elias Layon:– Continuar no objetivo de resgatar o Barroco Mineiro, através de uma nova leitura e, se sobrar tempo, fazer algumas peças em modelagem.
Cacá Drummond:– Qual a obra que você mais gostou de fazer?
Elias Layon:– Em cada época existe um trabalho especial que nos traz boas recordações. Hoje, estou mais entusiasmado com a criação de uma Nossa Senhora das Graças.
Cacá Drummond:– O que você acha da Arte em Mariana, atualmente?
Elias Layon:– A arte em Mariana deve muito do seu movimento atual à escola que a renomada artista plástica Erna Antunes iniciou aqui, na década de 60. Hoje, temos diversos artistas nas mais variadas vertentes, alguns levando o trabalho a sério e outros sem o menor compromisso com a Arte. Ninguém se torna um verdadeiro Artista sem dedicação exclusiva e obstinada. Como em qualquer área, é necessário empenho e amor, elementos imprescindíveis para se tornar um profissional competente.
Cacá Drummond:– Mariana é uma cidade que respira Arte, Você acha que seria interessante termos uma Escola Superior de Artes Plásticas, aqui?
Elias Layon:– Sem dúvida, seria muito interessante termos, aqui, uma Escola Superior de Arte, o que viria a contribuir, intensamente, para a vocação cultural da cidade. Ao mesmo tempo, seria espetacular se o Governo Municipal criasse, agora, um Salão de Arte com premiações adequadas aos artistas concorrentes. Isso viria a fomentar, ainda mais, o turismo na cidade, ao mesmo tempo, difundir mais o município, trazendo-nos artistas do Brasil todo.
Cacá Drummond:– O que você diria para um artista que está começando?
Elias Layon:– Que faça do desenho um exercício diário e obstinado e que procure observar, sintonizar, reproduzir, através da Arte, a natureza.
Cacá Drummond:– Você gostaria de enviar uma mensagem à cidade de Mariana?
Elias Layon:– Que a cidade, no atual e excelente governo de Celso Cota Neto, sem dúvida o melhor que a cidade já teve, possa continuar firme no caminho do resgate, cuidado e preservação de seu patrimônio artístico, pérola cultural de Minas. Celso Cota Neto, dentro de toda a beleza de sua simplicidade, devolve-nos paulatinamente, com seu trabalho de valorização do nosso patrimônio antigo, o orgulho e o prazer de sermos marianenses. À Mariana, só tenho palavras de agradecimentos por tudo o que me proporcionou, até hoje, na Arte e na vida..